Notas de um delegado sobre a literatura policial

Continuamos nossa série de posts para escritores sobre a escrita realista quando o assunto é a polícia civil e as investigações. Este conteúdo faz parte do curso Crime-lab para autores e roteiristas.


Perguntamos ao escritor e delegado de homicídios Luca Creido quais são os pontos fundamentais para a literatura policial. Vamos ver sua resposta?


Acredito que há dois pontos fundamentais que tornam qualquer literatura policial intrigante. Logo mais vou explicá-los, mas antes, acho legal pensarmos sobre o conto “O Homem da multidão”. Nele, Edgar Allan Poe nos apresenta um jovem fascinado pela unidade na multiplicidade da população londrina. Observando a população que caminha sob efeitos da luz, ele examina o rosto de cada pessoa e imagina anos de suas histórias:


“Vi camelôs judeus, com olhos de lince faiscando em rostos de que todas as outras feições expressavam apenas abjeta humildade; robustos mendigos profissionais fazendo cara feia para pedintes de melhor aparência, a quem somente o desespero tinha jogado na noite a pedir caridade; inválidos débeis e cadavéricos, sobre os quais a morte pusera uma mão firme, e que mancavam e titubeavam em meio à multidão, encarando a todos com um olhar suplicante, como que em busca de alguma consolação fortuita, alguma esperança perdida (...)”(POE, O homem da multidão.)


Mas, no meio daqueles rostos, ele percebe o mal-estar de um senhor peculiar, que se angustia com a ausência da multidão. O senhor caminha pelas ruas e estabelecimentos londrinos. Quando percebe que o local está esvaziando, vai até outro, mais cheio. Tudo isso é acompanhado por nosso narrador em primeira pessoa, que persegue o velho por diversas horas. O senhor busca não estar só, almeja a multidão, todavia, sem com ela se envolver. É uma espécie de moderna solidão coletiva, que alguém que já esteve em uma praça 7 (BH), Catedral da Sé (SP) ou praça dos Três Poderes (DF) consegue bem entender: se sentir sozinho no meio de tanta gente.


Assim, após horas de perseguição tentando entender aquele velho decrépito, conclui nosso narrador que ele não pode ser compreendido:


“’Este velho,’ eu disse afinal, ‘é o modelo e o gênio do crime profundo. Ele se nega a ficar sozinho. Ele é o homem da multidão. Vai ser inútil segui-lo; pois não vou aprender mais nada, nem com ele, nem com seus atos.’” (POE, O homem da multidão.)

Para um autor policial, ler Edgar A. Poe é fundamental. Não apenas por ser uma das fontes da literatura, mas por enfatizar em vários de suas obras que, apesar da automaticidade dos comportamentos (dos rostos e histórias iguais da nossa inevitável vida em multidão), há algo na sociedade, no ser humano, que não se pode compreender.


Baudelaire, ao descrever o poeta, assim o explicou:


“Há no homem, diz ele (Poe), uma força misteriosa, que a filosofia moderna é incapaz de perceber; e, no entanto, sem essa força inominada, sem essa tendência primordial, várias ações humanas permanecerão inexplicadas, inexplicáveis. (...)” (BAUDELAIRE, Outras Anotações sobre Edgar Poe.)

Como delegado de homicídios, a literatura policial me fascina por dois pontos primordiais: o primeiro, a sua capacidade de racionalizar a morte e os passos que a antecederam; o segundo, a capacidade de perceber que há certos segredos que não se deixam contar. Por que ele fez isso? Como foi a morte? Ele sofreu? Onde ele estava nos últimos instantes? Quem é o autor? O fascínio não está apenas em responder estas perguntas, mas deixar dúvidas enquanto elas são respondidas, pois a morte nunca poderá ser reconstruída.


Um bom autor e roteirista nunca pode esquecer estes dois pontos. Nos dizeres de Poe:


Homens morrem toda noite em suas camas, torcendo as mãos de fantasmagóricos confessores e fitando-os lamentosamente nos olhos — morrem com desespero no coração e convulsões na garganta, por causa do horror de mistérios que não aceitam ser revelados. Infelizmente, a consciência humana às vezes carrega tão pesado fardo de pavor que só no túmulo consegue desembaraçar-se dele. E assim a essência de todo crime permanece irrevelada.” (POE, O homem da multidão.)

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