5 Dicas de um delegado de homicídios para autores e roteiristas

Atualizado: 2 de mai.

A literatura policial é intrigante, ousada e complexa. É olhar para aquilo que ninguém deseja olhar: a dor, a morte, o trauma e mesmo assim continuar a olhar. Mas não é apenas do caos que ela se alimenta, mas da tentativa de desvendá-lo. E quem é melhor para dar dicas sobre como controlar o caos que um policial da homicídios?


A seguir, veja 5 dicas feitas por Luca Creido, Delegado de Homicídios e Escritor, para nossos escritores e roteiristas apaixonados pelo ramo policial:


1- Atribuição: quem investiga o homicídio?


Se você deseja fazer um personagem investigador de homicídios, tem que saber que o homicídio, via de regra, é apurado pela polícia civil (delegado, investigador, escrivão), salvo quando for praticado em detrimento de bens, serviços e interesses da União, ou de suas entidades autárquicas e empresas públicas. Por exemplo, um homicídio contra um Polícia Federal, na qualidade de Policial Federal (em uma prisão em flagrante ou durante uma operação), será de atribuição da Polícia Federal e de competência da Justiça Federal, não estadual.


2- Como chegamos em uma cena de crime?


Dificilmente um policial encontra uma cena de crime antes de ser acionado. Normalmente parentes, vizinhos, amigos e cônjuges são os primeiros a se deparar com o corpo no chão. Assim que é visto, o caminho mais comum é o desespero pelo impacto da visão e o acionamento de outras pessoas, geralmente com gritos. Posteriormente, um terceiro aciona a polícia. Em alguns casos, havendo suspeita que a vítima ainda possa estar viva, aciona-se o sistema de saúde. Como a polícia militar possuí um caráter ostensivo, pode ser que seja facilmente encontrada em alguns pontos. No entanto, caso não seja fácil visualizar uma viatura ou uma base própria, normalmente o cidadão aciona o “190” (número da COPOM - Centro de Operações Policiais Militares) que acionará a viatura mais próxima dos fatos. Normalmente, a própria COPOM aciona a CEPOLC (Divisão de Operações de Telecomunicações da Polícia Civil) que empenha sua equipe de homicídios.


3- Na cena do crime, o que devemos apresentar ao nosso leitor?


A maioria dos locais de homicídios no Brasil não revelam um autor altamente qualificado. Por estar muitas vezes diretamente relacionado com o tráfico de drogas, sobretudo por guerras por pontos de venda, o homicídio em sua maioria é causado por pessoas jovens, sem treinamento, às vezes no calor do momento. Isso, por outro lado, não impede que você crie uma atmosfera metódica e calculista para seu homicida, revelando toda sua inteligência na cena do crime. Uma boa opção é adicionar um kit crime, que revelaria como o delito foi calculado e como a vítima fora dominada: algemas, corda, durex... Quer tornar a cena do crime inesquecível? Coloque algo que você jamais imaginaria nela. Por que, ao invés de uma corda, você não amarra sua vítima com a estola de um padre?


4- Como descobrir o autor?


Estatisticamente, se o autor não for apontado nas primeiras 72 horas após o homicídio, a probabilidade de ele ser encontrado cai consideravelmente. Assim, é importante que vários elementos sejam coletados na cena do crime ou nos momentos que se seguem, como coletas de oitivas (quando testemunhas ainda querem falar), testes de periciais e capturas de filmagens. Todavia, se quiser fazer uma apuração mais complexa, e temporalmente maior, lembre-se sempre que um dos charmes da literatura e do filme policial é manter o leitor ou telespectador em suspense, e surpreendê-lo em seguida por algo que ele estava longe de esperar. Nada melhor do que implantar dicas falsas.


5- A literatura policial está nas experiências


Não há literatura policial fora do mundo ou do sentir. A literatura policial é percebida na sequência de fatos e na maturidade de como cadenciá-los. Dificilmente um bom policial terá menos de 5 ou 6 anos de experiência naquela área que se especializou. Dificilmente um autor ou roteirista policial será bom sem ter vivido aquilo que descreve. Veja canais do Youtube, converse com policiais, siga-os nas redes sociais, vá em locais de crime, converse com pessoas e faça cursos! Coloque no papel aquilo que experimentou.


Quer saber tudo sobre literatura policial com quem manja de verdade? O curso Crime-lab foi desenvolvido pelo delegado e instrutor da ACADEPOL, Luca Creido, e a autora de thrillers Cláudia Lemes. Confira clicando no link.




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