Como escrever thrillers: dicas para autores (parte 2)

Este post é uma continuação de "Como escrever thrillers: dicas para autores"


6- Faça um bom estudo de personagens


Parece uma dica igual à anterior, mas a anterior tem a ver com escolher a quantidade e função dos personagens na trama. Esta dica é óbvia – todo mundo sabe que não se faz livro bom sem personagem bom. Mas devemos prestar atenção a certas coisas; o primeiro parágrafo do livro, por exemplo, que precisa fisgar o leitor. Não jogue fora o primeiro parágrafo falando sobre o clima ou apresentando um personagem olhando pela janela num dia de chuva e refletindo sobre seu passado, ou mais clichê ainda, acordando. Aproveite o primeiro parágrafo para apresentar seu personagem e dar algum indício de conflito. Escreva algo que faz o leitor pensar “o quê?!”. Uma mulher vestida de noiva está saindo da prisão. Um padre está lutando num bar. Comece com uma frase instigante, ou até diálogo: “— Abaixa essa arma para a gente conversar, primo.” O começo do seu livro é um convite para o leitor, não o desperdice com besteiras.

Apresente seu personagem fazendo alguma coisa, não parado. Lembre-se que TUDO descreve personagem: o que ele(a) veste, o que ele(a) fala, onde mora, o aspecto dos seus pertences, suas cicatrizes, sua risada, o que os outros dizem sobre ele, como os outros personagens reagem a ele – tudo! Não conte para seu leitor quem o personagem é. Mostre para ele. Fazer outras pessoas virarem para acompanhar seu galã quando ele entra num restaurante tem muito mais impacto, para o leitor, do que um narrador intrometido falando “Paulo era muito bonito.”

7- Torne seus diálogos vívidos, intensos e imprevisíveis


Diálogos são difíceis porque precisam de equilíbrio. O ideal é que sejam naturais, mas na língua portuguesa deixar o diálogo natural demais pode também deixa-lo “sujo” e forçado. Não repita demais os nomes dos interlocutores, como no exemplo abaixo:

— Raíssa, você precisa entender o que aconteceu naquela noite.
— Não, Paulo, eu já entendi tudo.

Pegue leve nos verbos dicendi. Não use “exclamou Fulano” depois de colocar um ponto de exclamação na fala dele. Intercale diálogo com ações dos personagens e pinceladas de descrição. Dê a cada personagem uma voz própria, um jeito de falar que seja coerente com sua vida, profissão, personalidade, idade. Intercale afirmações com perguntas, interrupções, negações. Mostre o que o personagem está sentindo na maneira como ele se expressa. Seus diálogos precisam ter vida.

8- Plante uma boa surpresa ou um plot twist no meio da história




Um bom plot twist (não plot, plot é trama, não abrevie o termo para não falar besteira) não parece forçado ao leitor. Ele precisa ser totalmente surpreendente, mas também tem que fazer o leitor refletir: “como não pensei nisso antes?” ou “como não percebi isso?”. Plantar um bom plot twist no meio da história é uma forma de deixar o leitor grudado ao livro. Um bom exemplo de um twist a 50% do livro é o de Garota Exemplar. Se você não tem um bom twist para plantar neste momento da trama, use uma surpresa, pelo menos.

9- Dose bem as informações que vai dar ao leitor


Evite ser um “pavão misterioso”. O que deixa o leitor preso à história é informação, não a falta dela. Tem gente que acha que criar suspense é não dar ao leitor os nomes dos personagens, quem são, onde estão e o que estão fazendo. Pelo contrário, o que gera tensão é entender a situação e estar tão apegado aos personagens que você tem medo do que vai acontecer com eles. As informações da trama e do passado dos personagens precisam ser alimentadas ao leitor, de pouco em pouco, mas constantemente. Planeje o que ele vai ficar sabendo, e em quais partes do livro. E lembre-se de não entregar essas informações na voz do narrador, e sim de forma natural, por meio de diálogos, relatórios, mensagens, telefonemas, etc.

10- Invista em boas descrições sensoriais

Sua missão, como autor, é colocar o leitor dentro da história. Por isso, a ambientação e as descrições precisam ser bem-feitas. Infelizmente, muitos autores confundem descrever bem com descrever muito. A melhor descrição funciona com pinceladas, não grandes blocos. O objetivo dessas pinceladas é ilustrar alguma coisa, de forma que o leitor possa participar, sensorialmente, dela. É o tipo de trabalho que provoca reações do tipo “eu senti que estava dentro da história” ou “dava para ver tudo o que estava acontecendo”. Muitas vezes as pessoas chamam esses textos de “cinematográficos”, porque são tão bem-feitos que é possível ver a história do livro, como se vê um filme. Pense nos cheiros, sons, cores, texturas, iluminação, gosto, temperatura. Apoie-se em um ou dois sentidos por cena e use-os para dar dimensão e um toque de realidade à sua história. Use símiles e comparações criativas. Fique longe de clichês: azul da cor do mar, unhas vermelho-sangue, doce como mel. Exemplo de descrição rápida, high-def, criativa: “Os urinóis eram manchados como dentes de velhos”. Use sons de fundo e sons em momentos de pausa, quando um personagem hesita ou espera por algo. Use iluminação para dar clima ao ambiente. Use cheiros quando o personagem entra num lugar novo ou abre um recipiente. Faça descrições imersivas e breves, que juntas, levam seu texto do “contar” ao “mostrar”.


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