Retrospectiva introspectiva 2019

Sempre me pareceu de extrema arrogância achar que alguém se importa com o que eu fiz em determinado ano. No entanto, sinto que cada vez mais as pessoas estão se precipitando ao falar dos outros, e quando erram, é por falta de informação. Seguindo esse raciocínio, é melhor fazer um post deste tipo do que não fazer. Aqui vai um resumo hiper-resumido do meu 2019, considerando minhas contribuições para a literatura, meus erros e um balanço do que o ano me trouxe no âmbito profissional e no pessoal.


Livros publicados:



O Crime da Quinta Avenida: antes de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, havia Anna Katharine Green, a mulher que estabeleceu os padrões que seguimos até hoje para escrever ficção policial. Ela foi a primeira a tornar esse tipo de literatura, antes marginalizada, respeitável entre as classes médias dos EUA. Anna, enquanto criava três filhos, escreveu o best-seller The Leavenworth Case, traduzido em Portugal como O Caso da Quinta Avenida, e causou tanto furor com a qualidade da obra, em termos de lei e ciência forense, que chegaram a questionar se era possível uma mulher ter escrito aquilo. Quando conheci a história de Green, que acabou sendo esquecida, como boa parte das mulheres importantes é, eu decidi que queria publicá-la no Brasil. Chamei a editora Adriana Chaves e juntas criamos a campanha de financiamento coletivo, que foi um sucesso. Eu assino a tradução do livro e a Adriana a coordenação editorial, com capa da Project Nine e diagramação do Rodolfo Pomini.



Eu Vejo Kate vol. 1 e vol. 2: Eu Vejo Kate é um problema na minha vida, não posso negar. Sabe aquela música que tornou uma banda famosa, mas que ela não aguenta mais tocar? Em proporções menores, Kate tem esse impacto em mim. É um livro que as pessoas amam fervorosamente ou odeiam em proporções doentias. Foi meu primeiro livro, e seu estilo brutalmente honesto, com violência crua e sexo descrito em longos trechos, atraiu muita atenção. Isso foi bom: eu consegui minha primeira publicação tradicional e um grupo amplo de leitores. Por outro, o livro recebe mais atenção do que muitas das minhas outras obras, de melhor qualidade literária, como Um Martini com o Diabo e Inferno no Ártico, devido aos elogios dedicados de muitos blogueiros literários e o ódio espumante de alguns leitores indignados.


O segundo volume de Eu Vejo Kate já estava escrito há muitos anos, mas se fosse publicá-lo, só daria certo em 2019, ano em que a história se passa. Como os direitos de publicação voltaram para mim, decidi relançar o primeiro volume, cuja tiragem esgotou em 2017, e lançar o vol. 2 ao mesmo tempo, numa campanha de financiamento coletivo. O amor pela obra provou ser real. Eu precisava de R$ 17.000 para conseguir imprimir os dois livros, valor que foi levantado em 16 dias (!!). Até o final da campanha, mais de R$ 23.000 foram arrecadados, totalizando 136% da meta e deixando os haters mais agitados do que nunca, hehe. Meu maior orgulho com Kate foi ver o alcance que ele tem entre os thrillers nacionais, quantas vezes ele aparece como preferido nas listas dos blogueiros, e saber que a maioria dos leitores do volume 1 amaram a conclusão da história, contada no vol. 2.





Cartas no Corredor da Morte: Esta novela epistolar nasceu nas minhas primeiras interações com a Paula Febbe. Sem combinar absolutamente nada sobre a trama ou personagens, nós duas começamos a trocar cartas (leia-se: e-mails) como se fôssemos assassinas em série. Foi um dos trabalhos mais divertidos da minha carreira, que acabou resultando no livro mais pesado que já escrevi. A obra foi publicada apenas em e-book alguns anos atrás, mas em 2019 recebeu um tratamento especial da Monomito Editorial e um projeto gráfico de respeito. O lançamento aconteceu no evento Porto Alegre Noir, patrocinado este ano pela ABERST, e depois houve uma sessão de autógrafos em São Paulo.




Mulheres vs. Monstros: A coletânea uniu escritores como Fábio Fernandes, Larissa Brasil, Oscar Nestarez, Jana Bianchi, Rodrigo Vinholo, Denise Flaibam, Tito Prates, Clara Madrigano, Duda Falcão e Flávio Karras e publicou 11 contos de ficção especulativa baseados em lutas entre mulheres e monstros nos quadrinhos, filmes, séries, livros e mitologia. Além dos contos, cada autor contribuiu com um artigo no qual fala sobre sua inspiração, que varia entre os filmes Aliens, Halloween e Hora do Pesadelo, passa por Medusa e Atena, e explora até figuras como Barbarella e Babadook. Quando eu idealizei o projeto, uma das minhas metas era que ele valorizasse o autor nacional como as antologias raramente valorizam. Por isso, cada um dos autores foi remunerado pelos contos (não numa porcentagem ínfima de royalties, e sim como pagamento fechado antes dos livros serem vendidos), modelo que já está sendo copiado por outros organizadores (e era isso que queríamos). Além disso, a produção da obra foi feminina: uma mulher assinou a edição, outra o projeto gráfico, outra a revisão e outra o prefácio. Além disso, Mulheres vs. Monstros conseguiu, com a ajuda de seus 310 apoiadores, destinar R$ 820 para uma casa de abrigo para mulheres vítimas de violência, e seus filhos. Não consigo descrever o orgulho que tenho desse projeto.




Outros trabalhos


Inferno no Ártico (2017) foi baixado por mais de 1600 pessoas em 2 dias na campanha das Diabólicas: um grupo de autoras de ficção especulativa que se reuniu para divulgar seus livros em diversas ações (espere mais delas em 2020). Minha novela slasher, o trabalho mais debochado e divertido que já escrevi, também foi baixada bastante em 2019, totalizando mais de 500 downloads. Tem obra muito foda minha que será lançada em 2020, um conto e um thriller doméstico, ambos por editoras muito boas, e tem mais diversos contos que foram lançados em projetos de peso como Galeria Clarke de Suspense e Mistério, da Editora Wish, e meu conto In Útero, lançado no livro A Casa Fantástica. Em 2020 tem muita, muita coisa boa. Além disso, em 2020 serão lançados os dois primeiros livros que eu editei pelo selo Morgue, da editora Lendari, Se Eu Morresse Amanhã, da Fabiana Ferraz, e Missão Terra Firme, da Vivianne Geber.


Ciclos encerrados


Em 2020 precisei me despedir de muita coisa, e acho que essas despedidas aconteceram na hora certa, já que a única sensação que tive em todas elas foi a de paz de espírito. Eu e a Paula Febbe nos despedimos do Serial Chicks, depois de 3 temporadas turbulentas e muitas vezes angustiantes, que exigiram mais de nós do que esperávamos. Eu também me despedi da presidência da ABERST, carregando comigo o orgulho de tudo o que eu criei e da quantidade absurda de horas e energia que destinei ao trabalho na associação. Já fazia um tempo que eu estava esgotada e que queria sair da presidência, e fiquei feliz que uma pessoa tão dedicada quanto eu, o Tito Prates, vai poder continuar o trabalho que eu comecei e levar a associação – que nada mais é do que seus associados – a um novo patamar.


Bastidores do Serial Chicks


Reconhecimento


2019 Foi o ano em que mais senti que meu trabalho foi reconhecido ou concretizado. Eu fui convidada a participar de eventos importantes no meio literário, a maior parte deles com remuneração (o que para o autor nacional é raro e de imensa importância), e pude criar e patrocinar eventos de grande alcance. Entre os que se destacam na minha memória estão o Choque Literário, Porto Alegre Noir, A Casa Fantástica em Bento Gonçalves, Psicopatas na Ficção, Tocando o Terror no SESC Santo Amaro, Quem Matou o Matador no SESC Paulista, Domingo do Livro Dark, Santos Criativa Geek Festival e a HorrorExpo.






Trabalho, trabalho, trabalho


Em 2019 eu aprendi a parar de romantizar a vida de workaholic. Meu primeiro emprego de carteira assinada veio quando eu ainda estava no segundo ano do Ensino Médio e eu nunca soube dizer “não” para trabalho, o que sempre resultou em jornadas entre 12 e 18 horas diárias, mais noites em claro do que dormidas e exaustão a ponto de dormir por 20 horas seguidas depois do cumprimento de uma meta. Eu lembro que sobrevivi à base de Ritalina durante 15 dias para completar um job de tradução literária, dormindo pouco mais de 2 horas por noite, todas as noites, durante aquele mês.


Este ano tive minha primeira crise de ansiedade relacionada a trabalho. Quando precisei sentar e escrever tudo o que eu tinha que fazer, eu percebi que estava equilibrando o trabalho de 3 pessoas diferentes, e não, nem estou falando da maternidade ou de serviço doméstico, nem da pós-graduação ou outros cursos (este ano consegui a façanha de estar fazendo 4 cursos ao mesmo tempo enquanto trabalhava em 3 empregos diferentes). Com o piripaque, veio a certeza de que não há nada de nobre numa jornada que deixa seu emocional em frangalhos. Por isso, comecei a dizer os “nãos” doloridos, abrir mão de grana, abrir mão de projetos pelos quais sou apaixonada, mas não geram renda, e refazer minha lista de prioridades.


Aos 23, 24 anos, você quer se sua saúde se foda, mas aos 40 a perspectiva muda um pouco. Saí do Facebook, aprendi a focar meus esforços e a lidar com as pessoas que acham que quando eu digo “não” é porque sou antipática e “me acho”. Foi um ano de editar livros, dar palestras, traduzir, fazer muitas leituras críticas, administrar meu grupo de estudos, gerar conteúdo e consolidar meu espaço no mercado editorial. Ano que vem o foco será escrever, continuar traduzindo e fazer leituras críticas, um dos trabalhos que mais amo.


O saldo


O saldo foi positivo, claro. Sei que muita gente teve um ano ruim, mas eu não posso reclamar da sorte. Na verdade, o que 2019 me trouxe de ruim foi só a colheita do que eu plantei. O ano me trouxe toneladas de trabalho, e cabia a mim saber aceitar alguns e declinar outros, coisa que eu não soube fazer. O ano me deu saúde, que eu forcei até ser forçada a descansar. E o ano me deu amigos que me ajudaram a superar os poucos momentos ruins. Eu pude viajar a trabalho e por lazer e ver meus filhos crescerem, super saudáveis e felizes, por mais um ano. Então encerro 2019 com o coração bem leve, a mente sem arrependimentos e gratidão por cada momento vivido, apesar da época de trevas em que estamos vivendo. Vem, 2020, que eu estou mais pronta do que nunca. Traga os boletos e os haters com moderação e me ajude a continuar vendo a beleza nas pessoas e no mundo, apesar dos pesares.

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