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Quem critica os críticos?

Atualizado: 9 de mar.

Disclaimer:


  1. Este post não defende nenhum indivíduo específico e não ataca nenhum indivíduo específico. Em outras palavras: não é sobre você ou o que você postou.

  2. Este post parte do óbvio: qualquer pessoa tem direito de criticar qualquer coisa e artistas precisam aprender a lidar com críticas. Isso é FATO e não está sendo questionado aqui. (Leia de novo antes de comentar)

  3. Este post foi escrito porque precisava. Muitos autores não têm coragem de falar o que eu vou falar aqui, porque têm medo de represálias.

  4. E finalmente: eu sempre digo que só fui publicada porque uma blogueira me indicou para uma editora lá em 2013. Tenho um relacionamento lindo de reciprocidade e admiração com dezenas de blogueiros. Falo em todas as lives sobre como são importantes para a literatura. Então antes de comentar, lembre-se de que estou falando de um tipo específico de crítica, não de todas. (leia de novo antes de comentar).

  5. Não vou responder a comentários que ignoram os 4 pontos acima. Não vou dar um segundo de atenção a quem tirar qualquer trecho abaixo de contexto e levar para outra rede para criticar SEM o resto do post.


Obs: este post foi editado para incluir mais texto em 09/03


O autor nacional não consegue lidar com críticas?


Recentemente, fui convidada para participar de um grupo de leitura coletiva de um livro meu. Eu já devo ter participado de uns 30 desses, e sempre me divirto muito, conversando com leitores sobre os temas, personagens e peculiaridades das minha obras, e respondendo às suas perguntas sobre pesquisa, processo de escrita etc.


Eu quis dizer não. Estou numa época de prazos apertados, muito cansaço e pouco tempo com meus filhos e marido. Na noite em questão - domingo - meu marido e filho mais velho tinham que viajar bem no horário dessa reunião e eu não poderia me despedir deles se participasse. Mesmo assim, eu disse "sim". Como sempre digo. Como acho que como autora, sou obrigada a dizer (essa minha mentalidade precisa mudar).


Quando entrei na reunião, de cara senti um clima estranho. Seco. Estou acostumada com pelo menos um "obrigado por estar aqui", uma apresentação ou algo do tipo. Quando ouvi a proposta da dinâmica, fiquei incrédula: "Oi, oi, Cláudia, todos os leitores vão te falar o que acharam da obra, ok?"


Ué. Eu nunca vi um grupo assim. Prefiro conversas, debates, questionamentos mais interessantes. Aliás, qual é o propósito de uma reunião assim? Os leitores ganham o quê? O autor ganha o quê? Não é uma troca de nada. Mas ok... segui o baile.


A primeira leitora falou: "Oi. Então, eu gostei do livro MASSSS... te dei 3.5 estrelas!"


Peraí. Por que eu estava ali? Se quisesse feedback sobre o livro, eu teria ido até a página da Amazon, Skoob ou Goodreads LER resenhas. Adivinha? Eu nem sempre quero. Eu nem sempre estou a fim. Eu nem sempre estou num dia bom para ler resenhas e o pouquíssimo poder que tenho na condição de autora é poder escolher quando ler resenhas.


Além do mais, depois de mais de uma década no mercado, eu já sei o que quero escrever. Minhas obras já são aceitas pelo meu público, por editores e outros autores. Eu não tenho nada para provar. Eu já conheço a arte que quero colocar no mundo e quando tenho interesse em opiniões profissionais, eu consulto meus pares, eu contrato serviços de leitura crítica. Resenhas, para mim, são ferramentas para entender o público e algo útil para outros leitores escolherem o que desejam ler. Simples assim.


Mas naquele domingo eu sorri e ouvi a queixa da leitora: "Não concordo com o que H... fez com o M... Acho que ela expôs ele e não tinha esse direito."


Concordo com ela. A personagem não foi muito empática.


E...? Não tinha mais nada. Eu estava sendo "punida" ao vivo pelas atitudes de um personagem, totalmente condizentes com seu histórico, personalidade e enredo.


Pensei que se eu fosse um autor, poderia me levantar e ir embora, porque autores homens podem trocar socos uns com os outros sem que isso afete suas carreiras, mas opa, eu não queria pagar de louca ou antipática. Ou ser acusada de "não aceitar críticas".


Foi uma hora disso. Num domingo à noite. Meu marido se despediu pelo WhatsApp.


Para ser justa, a maioria dos leitores fizeram observações inteligentes e foram muito agradáveis, mas outra pessoa fez coro à amiga e reclamou de personagens que não gostou. Não houve perguntas, dinâmica de entrevista, interesse no processo criativo, nada. Só resenhas que eu nunca pedi.


No final, ainda com um sorriso, agradeci pelos insights e desliguei a câmera, exausta, drenada e com a sensação de que nenhum autor merece isso. E de que o autor nacional aceita migalhas demais.


Veja bem, não é sobre críticas. Até porque ninguém ali criticou escrita, trama, desenvolvimento de personagem, originalidade, nada. Crítica de verdade, não houve.


Houve reclamação sobre o que é "moral" e o que não é, para um ser humano fazer. Isso é o tipo de pergunta que quero entremeada à minha narrativa, não questionada diretamente a mim, como se houvesse algum tipo de resposta definitiva, sem debate, ou pior ainda, como se a literatura de gênero tivesse como objetivo moralizar ou catequizar.


Nenhum artista merece passar por esse tipo de coisa.


***


Sou leitora crítica há 7 anos. Foram mais de 150 obras lidas e criticadas, como profissão. Tenho fama de pegar pesado.


Entendo a vulnerabilidade do autor e tenho grande respeito por quem me PAGA por um relatório de fraquezas de um livro. E sim, às vezes, apesar de todos os meus pareceres serem exemplificados e bem embasados, alguns autores não aceitam.


Só que esses são apenas 2% deles. Ou seja, os outros 98% não apenas aceitam as críticas (e faço muitas), como me agradecem e a maioria volta a me contratar.


Então a falácia de que “o autor nacional não aceita críticas" é absurda. A maior parte deles não apenas aceita, como tem que aceitar muitas injustiças.


Estar do outro lado da crítica significa se deparar com coisas absurdas e não poder responder. Uma pessoa pode mentir sobre seu livro (darei exemplos) e você não pode nem sonhar em explicar o erro dela. Porque se você responder, o circo está armado: “Olha aí: o cara não sabe lidar com crítica! Cancela!” e o autor pode perder qualquer chance de ser publicado (é sua carreira em jogo).


Criticar é fácil


E criticar, convenhamos, é fácil. Você está blindado. Pode escrever o que quiser, dizer que é sua opinião e pronto. Essa opinião não precisa ser embasada, pois é só uma opinião. E você nem precisa entender do que está falando porque “não é crítico literário, é leitor”. Você pode confundir clichê com tropo e tudo bem. Você pode não entender nada de trama e subtrama, e tudo bem. Pode confundir cliffhanger com plot twist e tudo tranquilo porque você não é obrigado a nada.


A pessoa que critica não está sendo vulnerável. Por isso é tão fácil.


E por isso, a relação é desigual. Quando não há direito de resposta, existe silenciamento.


Quando um lado não tem nada a perder e o outro tem sua carreira em jogo, a relação não é equilibrada.



Quem está imune ao silenciamento?


Os poderosos.


Já viu como diretores e autores de Hollywood podem “rebater” críticas numa boa? 


Por que os autores gringos não rebatem críticas? Porque estão curtindo a fama e grana deles e estão alheios à sua sagrada opinião. Quando você resenha a Colleen Hoover não está falando com ela.


Por que é tão divertido criticar os autores nacionais? Porque eles provavelmente vão ler essa crítica, principalmente quando você usa a hashtag com o nome dele e o nome da editora, caso ele não seja independente. Você quer que ele leia. E se ele não curtir ou compartilhar a resenha, opa, vai ter "desabafo" sobre isso, também, pode esperar.


O nacional, sem grana, sem fama, sem segurança (tá numa editora hoje e fora dela amanhã), é o elo mais fraco da corrente. Colleen Hoover tá faturando milhões apesar de todas as tentativas de cancelamento. Você conhece UM autor nacional que se safaria com o que ela escreve (e isso não é uma crítica a ela, veja bem)?


Se eu escrevesse A Empregada, com um deus ex machina no final do livro, como você acha que seriam as avaliações na Amazon? Meu livro seria um bestseller?


A relação não é equilibrada. 


Imagina se hoje é criado um nicho em que influencers fazem a curadoria dos blogs literários que são bons e os que não são. Eles avaliam: constância na entrega de conteúdo e qualidade do mesmo. Qualidade das fotos. Coerência nas resenhas. Profundidade de análise das resenhas. Quantidade de livros lidos por mês. Engajamento. Quantidade de seguidores e comentários.


Só imagina o caos.


E imagina se os blogs não pudessem rebater essas críticas, porque caso o fizessem, seriam severamente punidos, cancelados e perderiam tudo pelo que trabalharam por anos (pense no investimento de tempo, energia e até financeiro).


A relação não seria equilibrada. As críticas seriam subjetivas e parciais, muitas delas com agenda própria e picuinhas pessoais.


Nem preciso imaginar. Eu vivi algo parecido. Recebi de um blogueiro literário um conto para leitura crítica. O conto tinha mil problemas de pesquisa, coerência e desenvolvimento de personagens, além da objetificação constante de mulheres. Como sempre faço, elaborei um relatório cuidadoso, com exemplos e explicações longas e delicadas. O autor não ficou muito feliz, me agradeceu e foi isso.


Só que não foi isso. Pouco tempo depois ele resenhou meu livro mais recente e avaliou mal. Sendo que ele leu quase todos os meus livros anteriores e me falou diversas vezes que eu era uma de suas autoras preferidas. Se ele não confiasse no meu conhecimento sobre literatura, por que pagaria caro por uma leitura crítica minha?


Um dos comentários na resenha dele foi "ué, mas do jeito que você fala, pensei que o livro teria uma avaliação melhor". Porque ele não conseguiu defender a nota baixa.


Nem todo mundo que critica está pronto para ouvir críticas.


Em nenhuma relação onde apenas um lado pode falar, há equilíbrio. Sem esse equilíbrio, injustiças são frequentemente cometidas. E no final, é isso o que sustenta a relação: quanto mais polêmica, quanto mais pessoal for o ataque (nacionais), mais divertido é. Mais engajamento gera. Coloca a pipoca no microondas, hoje teremos mais uma treta, oba!


Exemplos pessoais, porque não posso falar de vulnerabilidade sem me fazer vulnerável:


Recentemente, uma moça criticou meu livro porque “a personagem é casada e depois a autora esqueceu disso e o marido nunca mais foi mencionado.” 


Reli o original inteiro, suando frio. Como pude ter feito isso? Pensei “Nenhum editor pegou isso? Nenhum dos milhares de leitores desse livro percebeu esse furo? Nenhum dos jurados das premiações que indicaram esse livro como finalista ou vencedor percebeu esse furo?!”


Não, ninguém percebeu, porque não existe UMA menção no livro inteiro de que a personagem é casada. Outro personagem refere-se a ela como “mulher errada”, não “mulher casada”.


Ou seja, a resenha contém uma mentira sobre o livro. Não uma opinião. Um erro de quem resenhou.


E eu posso responder? Não.


Mas a crítica está lá, escancada para quem estiver considerando ler o livro. Ela basicamente diz: esse não vale a pena, corre lá para o bestseller gringo. Cuidado com nacionais.


Um rapaz criticou outro livro meu, dizendo que retratei uma polícia de cidade pequena com os mesmos problemas de uma polícia de cidade grande. 


Só que todos os problemas daquela polícia foram tirados de uma entrevista num jornal, com um policial daquela cidade, listando aqueles problemas. Eles existem. Não foi "opinião" minha. Foi pesquisa.


E eu posso responder? Não. 


Tenho uma lista de exemplos assim, meus e de colegas meus, em que algo completamente sem sentido ou embasamento foi motivo para uma pontuação baixa, que prejudica SIM o desempenho da obra. Muitos autores desabafam comigo porque não têm direito a resposta, não importa o absurdo ou mentira escrita sobre seus livros. Isso afeta a saúde mental deles, e muitas vezes a motivação para continuar escrevendo. Por que são fracos? Não. Por que não sabem aceitar críticas? Não. Porque se sentem injustiçados e silenciados.


Em quase todas as vezes que um leitor me disse que meu livro tinha um “furo” e eu tive a chance de humildemente perguntar “mas qual?” a pessoa não descreveu um furo. Ela descreveu algo que ela não entendeu. Quando mostrei a página em que aquilo é desenhado, elas disseram: “ah, eu nem me liguei, foi mal”.


Uma vez duas meninas criticaram o final de um livro meu, assim: "Achei um absurdo que no final, o homem tem que ir lá salvar as mulheres." Esse não é o final do livro. Foi necessário o amigo delas explicar: "mas gente, isso não acontece no livro. Quando o homem chega no local, mas mulheres já tinham se salvado sozinhas." E elas perceberam que estavam lendo algo que nunca foi escrito. Queriam tanto criticar que precisaram inventar um final alternativo.


Recentemente uma garota disse que há um “furo” em QOMF: “a personagem que pega o vilão nem é mais da polícia”. Isso é um tropo do gênero, não um furo. Mas eu não posso explicar isso sem ser linchada.


Estou dizendo que sou imune a cometer erros ou furos? De forma alguma. Estou dizendo que nos meus 11 anos no mercado, publicando dezenas de obras, entre contos, romances e livros de não-ficção, atuando como mentora de autores, leitora crítica, editora e ghostwriter, eu já vi opiniões sendo jogadas em resenhas sem nenhuma base, análise, pesquisa ou responsabilidade. E aí está meu ponto: um lado pode falar o que quiser. O que quiser. Ao outro, resta uma opção: o silêncio.


“Who watches the Watchmen?” 


Quem critica os críticos?


Leitores podem e devem dar suas opiniões sobre o que leram. (caramba, leia isso mil vezes!)


Blogueiros literários trabalham arduamente para divulgar livros e contribuem mais para a formação de leitores no Brasil do que o próprio governo federal. Eles são extremamente importantes para a literatura.


O que não podemos fazer é fingir que isso não atinge os autores, que são humanos. Que devem "aceitar qualquer coisa ou cair fora".


Não podemos fingir que toda crítica faz sentido.


Não podemos fingir que todo mundo que critica sabe do que está falando e não podemos fingir que a repressão de autores que abordam tabus e temas delicados em suas obras é um movimento legítimo e inocente.


Não se trata de coitadismo. Estamos na era de ouro do coitadismo, em que poucas pessoas se responsabilizam pelo que falam, interpretam e sentem. O outro é sempre o errado, sempre o problema. Todos somos pobres vítimas. E os "críticos" que surtam quando confrontados com o tamanho da besteira que falaram, estão inclusos nesse grupo.


Esse post não está dizendo que toda obra é perfeita, ou sequer boa.


Não está dizendo que obras não podem ser criticadas.


Ou que todo autor é um coitado.


E só o fato de eu ter que explicar algo tão óbvio já é um sinal dos tempos.


Só o fato de eu ter medo de publicar esse post já é um sinal dos tempos.


Existe um silenciamento aí. E uma cultura em que o artista tem que aguentar tudo, ou não é digno da posição que ocupa. Só não vê quem não quer.



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