Como estruturar seu livro
- Cláudia Lemes
- 19 de mar.
- 11 min de leitura
Escritores costumam se dividir entre "arquitetos" e "jardineiros" quando o assunto é o planejamento dos seus livros.
Arquitetos são aqueles que planejam uma obra minuciosamente, com escaletas e estruturas, enquanto jardineiros são aqueles que vão escrevendo de acordo com a inspiração, plantando ideias, regando-as e "vendo aonde vai dar".
Se você escreve, sabe que não é tão preto ou branco assim. Você pode planejar um pouco, mas permitir-se desviar do planejamento quando necessário, e recalcular sua rota. E convenhamos, muitas vezes um autor se autodenomina jardineiro não por ter testado o planejamento e percebido que não funciona para ele, e sim porque ele simplesmente...
...não conhece as estruturas e não quer estudar.
A verdade é que precisamos escrever por muitos anos para entender nosso próprio processo criativo, e mesmo assim, ele vai mudando conforme vamos evoluindo na escrita.
Minha sugestão é que você sempre estude tudo, tente aplicar diversas estruturas diferentes e analise o que funciona ou não para você.
A seguir, vou apresentar 3 estruturas narrativas para te ajudar a começar a planejar seus livros para:
Ter menos furos de trama;
Evitar que seu segundo Ato seja longo e sem ritmo;
Que você tenha que reescrever demais na segunda versão.
Eu NÃO vou falar sobre a Jornada do Herói por um motivo simples: todo mundo já falou sobre ela e já existe material abundante na internet para você pesquisar. Também porque apesar de popular, nem sempre é a melhor estrutura para um livro e, convenhamos, muita gente já está cansada dela.
Tendo dito isso, é importante lembrar que as estruturas são todas parecidas. Todas são essencialmente sobre a transformação do protagonista. Então todas conversam entre si.
As estruturas abordadas aqui serão:
3 Atos, para quem não quer planejar muito, apenas quer ter uma visão geral da história
DREAM: um guia para planejar seu arco de personagem
Save the Cat: a estrutura que eu mais recomendo para escritores de gênero
A Estrutura de 3 atos
O Ato 1 corresponde a cerca de 1/5 do tamanho do livro. Nele, você apresenta os personagens principais, o principal conflito externo e interno e coloca o protagonista no caminho sem volta para se envolver com o grande problema da trama. No final do ato 1, o protagonista percebe que o problema é maior do que ele tinha previsto, mas não pode voltar atrás, já está comprometido com a história.
No Ato 2, vamos ver o protagonista cada vez mais envolvido com o conflito. Ele faz aliados, conhece inimigos, aprende lições importantes. Tem vitórias e derrotas. Os eventos deste ato devem ser relacionados ao conflito externo e interno do livro. A pressão deve ir aumentando à medida que o protagonista se vê mais próximo de um combate com o vilão. No final deste ato, o protagonista deve estar enfrentando seu maior dilema, finalmente confrontando seu fantasma interior. O ato 2 corresponde a 3/5 do livro.
No Ato 3, os últimos 1/5 do livro, o protagonista já sabe o que tem que fazer para cumprir seu objetivo/enfrentar o vilão. É a grande lição que a jornada inteira lhe ensinou. Ele assume o risco desse grande confronto e manifesta o que aprendeu. A clímax acontece. A resolução é o resultado desse clímax.
DREAM: um guia para o arco do protagonista
Já leu um livro e sentiu que as ações do protagonista (ou outro personagem) não estavam muito coerentes? Isso pode ter acontecido porque o autor não seguiu as etapas do DREAM.
Pense no DREAM como estágios naturais do envolvimento de um personagem com o problema/conflito da trama.
Sabe como as pessoas falam que o luto tem certos estágios, como negação, raiva, barganha, depressão e aceitação? O DREAM é parecido com isso.
Seguir o DREAM vai garantir que:
Seu personagem se envolva com o conflito da trama de forma gradual e realista.
D.R.E.A.M. é um acrônimo em inglês para:
Denial
Resistence
Enquiry
Acceptance
Manifestation
Em português ficaria assim:
Negação
Resistência
Investigação
Aceitação
Manifestação
Vamos falar sobre o que cada etapa representa para o seu personagem:

Negação
Nesta fase, seu protagonista não reconhece que há um problema. Isso pode ser relacionado ao conflito externo (o grande problema da história, que pode ser uma invasão alienígena, um serial killer agindo na cidade, a volta de seu ex-namorado para a cidade no mês do seu casamento com outro cada, aparições de espíritos etc), ou o conflito interno do próprio personagem (seu fantasma, aquela coisa mal resolvida do passado que o prejudica até hoje e guia suas ações).
Na fase de negação, o problema é apresentado na história, mas seu personagem se recusa a admitir que há um problema.
Resistência
Nessa próxima fase, os acontecimentos são impossíveis de ignorar. As coisas ruins estão acontecendo e seu personagem não pode mais fingir que não. Ele até reconhece que há um problema, mas resiste à reconhecer a seriedade dele, ou que esse problema envolve ele também.
Investigação
A investigação é a fase longa, geralmente na primeira metade ou em todo o Ato 2. Aqui, o personagem começa a se envolver com o conflito. Ele relutantemente decide investigar o que está acontecendo, até ficar cada vez mais envolvido pessoalmente. A cada nova descoberta, ele percebe que não tem como voltar atrás e compromete-se com o conflito.
Aceitação
Não só o personagem aceita a seriedade do problema, mas também que cabe a ele fazer algo a respeito. A decisão tem que ser catártica, íntima, intensa. Ele entende até que é possível que ele morra tentando resolver o problema. Algum sacrifício tem que ser feito. Ele decide resolver o problema de uma vez por todas, não importa o que isso lhe custe.
Manifestação
Apenas pensar não é o bastante, então no estágio de manifestação, seu protagonista precisa agir. Aqui temos uma ação deliberada em que ele coloca em prática a lição aprendida para o confronto final. Se você escreve romance, por exemplo, a manifestação muitas vezes é o matrimônio, ou seja, o personagem se compromete com seu par romântico definitivamente.
Se você quiser aplicar o arco DREAM à estrutura em 3 atos, ficaria assim:
Ato 1: Negação e resistência
Ato 2: investigação e no finalzinho, aceitação
Ato 3: manifestação
Estrutura Save the Cat
A estrutura Save the Cat foi originalmente escrita para roteiros, por Blake Snyder, em 2005. A autora Jessica Brody a adaptou para a narrativa longa de ficção, detalhando-a em seu livro Save the Cat Writes a Novel. Aqui estou usando o Save the Cat para romances de qualquer gênero, não roteiros!
Antes de começar, é importante lembrar que para aplicar o Save the Cat, você deve:
Entender o conceito de História A e História B;
Entender o que seu protagonista quer e o que ele precisa. Não são a mesma coisa;
Entender o conceito de "beat sheet";
Criar um herói digno para a história;
Entender a lição de vida do herói.
Entenda História A x História B
Dividir sua história em duas camadas é importante no Save the Cat.
História A: a trama, o conflito externo, ligado ao que o personagem QUER
História B: a alma da história, o conflito interno, ligado ao que o personagem PRECISA
A História A é aquela que está na sinopse, é a premissa do livro, a parte que seduz o leitor, o problema a ser resolvido, as perseguições de carro, explosões, beijos, foguetes e assassinatos.
A História B é a transformação do personagem, que faz o leitor se importar com a história e se emocionar com ela. É a lição de vida, a jornada interior do prota. Ou seja, o mais importante.
Entenda querer x precisar
O protagonista quer alguma coisa (desativar a bomba, resolver o crime, vencer os Jogos Vorazes).
Mas ele está errado. Não é o que ele quer que irá levá-lo a sua felicidade (ou a cumprir seu destino).
O protagonista carrega um "caco de vidro" (fantasma, trauma, dor) que precisa ser arrancdo para que ele se cure de verdade.
O caso de vidro é o problema real na vida do seu personagem. É o que faz ele ser como é e agir como age. E no começo da história, está infectando toda a sua vida.
A maior pergunta que você deve fazer antes de começar é: o que vai realmente resolver a vida do protagonista? O que ele precisa aprender?
Não é desativar a bomba, e sim se redimir do erro que cometeu no passado. Não é resolver o crime, é aprender a trabalhar em equipe. Não é vencer os Jogoz Vorazes, é desmantelar o sistema que o aprisiona.
Essa é a História B, entendeu? Ela é o coração da sua história.
O que é uma beat sheet?
A estrutura Save the Cat é dividida em 15 "beats". Beats são os grandes pontos da trama, os eventos que movem a trama para a frente. Simplificando, os beats são os momentos em que algo importante acontece para a história.
Como criar um herói digno para sua história?
Olha, parece óbvio, mas é aqui que muito autores erram. Não adianta criar uma história incrível se o personagem não é digno dela. Se ele não é interessante o suficiente para prender o leitor a ela.
Uso o termo herói aqui como forma de simplificar o personagem principal da história. Pode ser de qualquer gênero ou tipo de personagem (anti-herói, anti-vilão etc).
Sem um herói digno, o leitor não vai se importar.
Um herói digno de ganhar uma história deve ter:
Um problema - um defeito que precisa ser consertado
Um desejo - algo que ele quer, algo que está correndo atrás para conseguir
Uma necessidade - algo que ele precisa, a lição de vida que tem que aprender
O problema do herói
O problema do herói não pode afetar apenas uma área da sua vida. Ele precisa vazar para atrapalhar sua vida profissional, pessoal, emocional etc.
O que o herói acha que vai resolver seus problemas? Ele precisa estar ativamente buscando essa solução.
Por que ainda não conseguiu? Não deve ser fácil para seu herói conseguir o que quer. Deve haver uma força de oposição dificultando sua vida.
O desejo é apenas metada da história. Para ser completo, o herói também precisa de uma necesssidade.
Qual é a lição de vida do herói?
Ou seja, qual é o tema da sua história? Qual é a grande lição que ele vai aprender durante sua jornada e finalmente manifestar no final?
Lições de vida mais comuns em histórias (fonte: Save the Cat Writes a Novel):
Perdão (a si e outros)
Amor (a si, família, romântico)
Aceitação (de si mesmo, circunstâncias, realidade)
Fé (em si mesmo, outros, mundo, Deus)
Medo (superar medos, dominar o medo, encontrar coragem)
Confiança (em si mesmo, outros, no desconhecido)
Sobrevivência (e paixão pela vida)
Abnegação (sacrifício, altruísmo, heroismo, superar a ganância)
Responsabilidade (dever, ter uma causa, aceitar seu destino)
Redenção (reparação, aceitar culpa, remorso, salvação)
Resumindo:
Para uma boa história, precisamos de uma trama (série de eventos), uma estrutura (ordem desses eventos) e desenvolvimento de personagem (a lição que ele deve aprender).
Checklist:
Antes de conhecer a beat sheet (estrutura), pergunte-se:
Seu herói muda mais do que qualquer outro personagem do livro?
O problema ou defeito do seu herói é específico?
Esse problema ou defeitocria uma intensa necessidade de mudança?
O objetivo do herói é tangível e concreto? Ou seja, o leitor vai saber quando e se ele o atingir?
Há algum obstáculo impedindo o herói de conquistar esse objetivo?
A necessidade (lição de vida) do seu personagem é universal? Qualquer pessoa a entenderia?
Beat sheet (e onde cada beat está no livro)
ATO 1
Imagem de abertura (0-1%)
Declaração do tema (5%)
Set up (1-10%)
Catalisador (10%)
Debate (10-20%)
ATO 2
Transição para o ato 2 (20%)
História B (22%)
Diversão (20-50%)
Midpoint (50%)
Os malvados se aproximam (50-70%)
Tudo está perdido (75%)
Noite escura da alma (75-80%)
ATO 3
Transição para o Ato 3 (80%)
Final (80-99%)
Imagem de fechamento (99-100%)
Explicando cada beat
Em primeiro lugar, lembre-se que alguns beats são beats de uma cena só, ou seja, em UMA CENA, aquilo acontece. Outros beats levam diversas cenas para serem construídos.
Entre seu rol de personagens, há personagens relacionados à História A e outros relacionados à História B.
Imagem de abertura
A primeira "foto" do herói para o leitor. Mostra ele fazendo algo, sendo quem é no começo da história. Fará um contraste enorme com o último beat (Imagem de fechamento).
Declaração do Tema
Quando outro personagem fala algo que dá uma dica sobre o arco do herói. Ou seja, algo sobre o que ele precisa aprender ou descobrir antes do final do livro. Isso dever ser feito de forma sutil, inteligente e impactante, não professoral ou explicativo.
Set up
Poderíamos traduzir set-up como "montar o palco" ou colocar as peças no tabuleiro. O set-up é 1-10% do livro. É a exploração da vida do herói antes da sua transformação épica. Apresente outros personagens, assim como o desejo do personagem e relutância a mudar.
Catalisador
Uma cena só, em que o herói se depara com um incidente que muda tudo, forçando-o a iniciar a jornada num novo "mundo". Deve ser impactante o suficiente para que o herói não possa voltar para o "antes".
Debate
A reação ao catalisador. Pode ter muitas cenas. O herói debate o que fará a seguir. Geralmente é uma pergunta. Mostra sua relutância à mudança.
Transição para o ato 2
Momento em que o herói decide aceitar a chamada para a aventura e deixar sua zona de conforto. É um beat de ação decisivo, que separa o mundo do ato 1 do novo mundo do ato 2.
História B
A apresentação de um novo(s) personagem(ns) que servirá(ão) para ajudar o herói a aprender o tema. Pode ser um par romântico, nêmesis, mentor, amigo ou parente.
Diversão
Só alegria para o autor. O herói está no novo mundo, amando ou odiando a experiência, vencendo ou falhando. Esta é a parte do livro que o leitor comprou para ler: as explosões, descobertas, brincadeiras, perseguições etc. Ou seja, tudo de divertido para o escritor.
Midpoint
Toda a parte da diversão anterior culmina em uma vitória falsa (se o herói estiver vencendo até agora) ou derrota falsa (se o herói estiver falhando até agora). Algo acontece aqui para aumentar os stakes, ou seja, os riscos (o que o herói tem a perder).
Os malvados se aproximam
Se o midpoint for uma vitória falsa, essa parte será um caminho negativo em que as coisas ficam progressivamente piores para o herói.
Se o midpoint foi um fracasso falso, esta parte será um caminho ascendente, em que as coisas ficarão progressivamente melhores para o herói.
Em ambos os casos, os defeitos profundos do herói estão dificultanto sua vida. Os "malvados" são figurativos (conflitos internos) e/ou literais (os vilões).
Tudo está perdido
O momento mais negativo da história. Um beat de ação em que algo acontece ao herói, empurrando-o ao fundo do poço.
Noite escura da alma
Beat de reação, em que o herói processa tudo o que aconteceu até agora. Ele deve estar pior do que estava no começo da história. É a hora mais escura, logo antes do amanhecer, em que o herói descobre a solução para seu grande problema e aprende o tema ou lição.
Transição para o ato 3
O momento eureka, em que o herói percebe o que precisa fazer para resolver seus problemas, e principalmente, se curar da sua grande dor. Seu arco está quase completo.
Final
O herói prova que aprendeu o tema de verdade. Os malvados literais e figurativos são destruídos. Não apenas o mundo do herói está salvo, mas agora é um lugar melhor do que antes.
Imagem de fechamento
Uma imagem espelho da imagem que abriu o livro, sendo um retrato do "depois" do herói, após ter passado por essa transformação épica.
Dicas para aplicar a estrutura:
Veja os três atos como três mundos diferentes;
Sua cena inicial deve ter tudo a ver com o gênero que você está escrevendo, incorporando seus elementos clássicos;
O herói a princípio deve estar relutante à mudança;
Crie uma jornada de transformação crível;
Lembre-se de criar personagens relacionados à história A e à História B;
O primeiro momento é de estase, um momento de morte, no sentido de que se o herói não mudar, ele está condenado;
Lembre-se que a maioria das pessoas não muda caso algo muito importante e sério aconteça e as force a isso;
O catalisador deve ser imenso, não dá para ser uma coisa boba. A reação do leitor deve ser "quêeee?! Por essa eu não esperava!"
Para cada catalisador, há um debate. O debate é um beat de várias cenas e pode ser uma decisão ou uma preparação;
O ato 2 é o momento em que o seu herói tenta consertar a coisa, mas do jeito errado.
Ufa! Agora que você já conhece três estruturas narrativas, pode começar a testá-las em seu novo projeto, ou até para "consertar" o ritmo de um projeto já pronto. Se este post (que levou hoooooras para escrever) te ajudou, deixa um coraçãozinho aqui embaixo, ou melhor ainda, comente!
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