Arquivos do escritor: como escrever sobre maternidade e crianças de forma realista

Atualizado: Nov 9

Às vezes precisamos escrever sobre algo que não vivenciamos e do qual não entendemos bem. Muitas pessoas dão de ombros e dizem apenas "ah, mas depois eu mostro para alguém que passou por isso para ver se fiz alguma besteira". Só que sabemos que nem sempre o olhar de alguém é a melhor leitura crítica. Até porque, se fosse, não teríamos tantas descrições bizarras de gravidez, parto e menstruação, por exemplo, em livros publicados.


Particularmente, uma coisa que me incomoda é a forma como todas as crianças são infantilizadas em livros escritos por quem não entende muito de crianças. crianças de 8 anos se comunicando como crianças de 2 anos, por exemplo. A outra são os partos-relâmpago, que acontecem em 10 minutos e onde ninguém expele a placenta.


Você não é obrigado a ter vivenciado tudo, é claro, mas como autor, fazer uma boa pesquisa é sim sua obrigação. E lembre-se que a opinião dos outros conta - mas que as pessoas só podem dar informações a partir do ponto de vista singular delas. Uma mulher rica de 28 anos na Holanda vai ter uma experiência de gravidez e parto completamente diferente de uma mulher pobre de 42 no Brasil.


No Workshop BOLD vamos falar sobre tudo isso, mas neste post, vou fazer uma checklist para ajudar. Vamos lá.


SOBRE CRIANÇAS


Crianças de dois anos são completamente diferentes de crianças de seis, que por sua vez são pouco semelhantes às crianças de nove. Quando você pergunta a idade para uma menina de quatro anos, é possível que ela mostre nos dedinhos, como ensinam na escola, mas uma criança de sete anos não fará isso, provavelmente.


O que esquecemos é que crianças de 5 anos já se comunicam muito bem, cometendo poucos erros gramaticais, conjugando verbos e usando até palavras complicadas. Aos 8, 9 anos, hoje em dia, elas raramente têm brinquedos, preferindo computadores, celulares e tablets. Pesquisar e observar a criança da idade do seu personagem mirim é fundamental.


Para ter um ponto de partida, esses links podem ajudar. Mas não se esqueça de ouvi-las, estudar sua linguagem corporal, estudar o que comem e como comem, sua forma de se relacionar com adultos, seus interesses etc.


Desenvolvimento cognitivo


Desenvolvimento de linguagem


Brincadeiras para cada faixa etária



SOBRE GRAVIDEZ


Imagina uma mulher que teve quatro filhos lendo o seu livro policial ambientado em São Paulo em 2021, no qual uma gestante diz: "Estou grávida de dois meses". Ela vai gargalhar. E não vai te levar a sério. Por quê? Porque existe um motivo pelo qual medimos uma gravidez em semanas - e esse motivo não é obrigar os amigos a fazerem contas.


Uma gravidez dura de 37 a 42 semanas. Já fez essa conta? Mais do que 9 meses né? Pois é. Além disso, o primeiro ultrassom é importantíssimo para medir com mais exatidão a idade gestacional da mulher. É muito mais fácil acompanhar essa evolução falando em semanas + dias. Por isso é comum uma gestante falar "grávida de 4 semanas e 3 dias", porque é como ela e o/a obstetra calculam o tempo. O que importa para ela são as semanas, não os meses.


Uma gravidez nunca é igual à outra, mesmo quando acontece com a mesma mulher. Qualquer mãe com quem você conversa vai dizer que as gravidezes foram diferentes. Por isso, você até pode basear a gravidez da sua personagem na sua ou na da sua mãe, mas se todas as suas personagens tiverem a mesma experiência, vai parecer estranho. Algumas mulheres não sentem nenhum incômodo, e outras passam muito mal.


O que não fazer no seu livro?


Não cair nos clichês. Por exemplo, o "enjoo matinal" não é matinal em boa parte das mulheres. Nem todas acham a gravidez linda, nem todas acham um saco. Quase todas têm dificuldades para dormir no terceiro trimestre e fazem muito xixi. O ideal é conversar com várias, várias mulheres, de preferência de idades e estilos de vida diferentes, e anotar o que todas relatam em comum, e o que pareceu uma experiência individual.


O que fazer?


Reflita sobre sua personagem e o ambiente dela. Mas cuidado com conclusões óbvias demais. Por exemplo, uma garota de 17 anos que engravidou não precisa necessariamente odiar sua gravidez (Mona Mayfair, de A Hora das Bruxas da Anne Rice, tinha 13 anos e amou estar grávida). A família dela não precisa necessariamente ficar furiosa e colocá-la para fora de casa e podem sim, achar legal ter outra criança em casa. Trabalhar o que não é óbvio, brincar com contradições e sair dos clichês é fundamental para ter uma narrativa original.


Questionário:

  1. Minha personagem sempre quis ter filhos ou nunca quis ter filhos? Ao perceber-se grávida, ela se surpreende com sua reação, por ser oposta ao que ela imaginou? Ou a gravidez só reforça seus desejos anteriores?

  2. Como foi a relação sexual que levou a essa gravidez?

  3. O ambiente em que sua personagem vive (um castelo, uma nave espacial, uma cabana num apocalipse zumbi) oferece riscos a essa gravidez e ao bebê? Como sua personagem vai lutar contra esses obstáculos?

  4. A personagem será uma mãe com um(a) parceiro(a) que a apoia e participa com entusiasmo da gestação ou será uma mãe solo? As pessoas que convivem com ela oferecem uma rede de apoio, um ambiente tóxico ou perigo real?

  5. Sua personagem tem condições de ter acompanhamento médico? Como esse acompanhamento é feito na ambientação da sua história? É a partir daí que você vai ter que pesquisar. Mulheres no velho oeste não chamariam um médico, e sim uma parteira. Se sua história se passa no futuro, como você imagina a medicina?

  6. Cuidado para não romantizar a morte no parto. Sim, não era incomum uma mulher morrer no parto antigamente, mas era longe do que os filmes querem que você acredite. Lembre-se que eram mulheres que pariam vários filhos e mesmo assim, as mortes eram cerca de 1% dos partos. É um número absurdamente grande, claro, mas nada comparado ao exagero que vimos nas obras de ficção atuais. Se você precisa mostrar uma morte no parto, talvez seja mais interessante a mãe morrer por uma infecção após o parto do que de hemorragia logo após dar à luz. E não invente coisas: o cordão umbilical enrolado no pescoço não mata bebês, por exemplo. Estude para não repetir esses mitos.

  7. Sua personagem se conecta com seu bebê logo no início da gestação ou apenas quando o bebê nasce? Ela sente culpa? Como a gestação a transforma?

  8. Se ela tem um problema na gravidez, como ele a afeta, como afeta aos outros e à trama? Pesquise bem sobre esse problema e sempre que possível, converse com um médico.

  9. Pense em coisas práticas: gestante tomam vitaminas, carregam o cartão do pré-natal sempre consigo, fazem muitos exames fora ultrassons (sangue, urina, glicose), passam muito tempo lendo sobre o assunto...

  10. Dependendo do gênero que você está escrevendo: como a gravidez faz sua personagem se envolver com o problema da trama? Como a gravidez a coloca em risco? Como a gravidez desperta sentimentos de outros personagens em relação a ela? A gravidez serve como um "ticking clock"?

SOBRE PARTO


Em primeiro lugar: partos são seguros e naturais. Eles não "estragam" a vagina. Quando a mulher é respeitada, partos podem ser o evento mais bonito de suas vidas. O problema do parto é quando 1- a mulher tem uma gravidez de alto risco 2- a mulher está em condições não favoráveis para o parto e 3 - ela tem um atendimento ruim. Para definir como vai ser o parto em sua história, há muitos fatores que influenciam:

  1. Relação da sociedade com o parto. Em civilizações matriarcais, o parto é visto como um evento bonito e natural e muitas mulheres participam dele. Quanto mais machista a sociedade, mais o parto é visto como algo feio, sujo ou que precisa de intervenções de homens.

  2. Relação da personagem com o parto. Se ela pesquisa muito sobre o assunto e está bem informada, as chances são que ela tenha pouco medo do parto. Se ela tem traumas, principalmente médicos e sexuais, ela pode morrer de medo do parto, pelo menos em ambiente hospitalar. Ela tem quanto poder na hora de decidir? Lembre-se que no Brasil, mulheres pobres e ricas sofrem violência obstétrica, mas de formas diferentes. Mulheres pobres recebem atendimento cruel em muitos hospitais, onde médicos e enfermeiras mandam elas pararem de gritar, culpam a sexualidade da mulher ("na hora de fazer não gritou") e são especialmente cruéis com mães adolescentes. Fazem intervenções de rotina sem necessidade, como o uso de ocitocina sintética para agilizar o parto, o que pode ser muito dolorido para a mulher, assim como a episiotomia. A mulher de classe média é violentada de outra forma: os obstetras inventam desculpas e ameaças para que a mulher seja levada a uma cesariana sem necessidade. Pesquise sobre o assunto. Boas fontes: O documentário O Renascimento do Parto, a OMS, e o blog da PhD Melania Amorim (Estuda, Melania, Estuda!).

  3. Circunstâncias do parto.

Clichês e erros comuns:

  1. O parto relâmpago, onde a bolsa estoura e em dez minutos o bebê está coroando. Partos levam, quase sempre, muitas e muitas horas (às vezes, dias) e progridem devagar. As primeiras horas de contração doem pouco, e elas vão ficando mais intensas à medida que o parto vai evoluindo. A mulher dilata aos poucos. Nem sempre a bolsa estoura antes das contrações começarem e às vezes nem estouram e a mulher dá à luz um bebê empelicado.

  2. Existem duas dores distintas num parto. A dor das contrações e a dor do expulsivo. Durante a maior parte do parto, a mulher vai sentir dores das contrações, enquanto o colo do útero dilata. Na hora do bebê nascer, com o colo dilatado em 10 cm, ela vai expulsar o bebê.

  3. O médico ou outros gritando "puxa! Faz força" é uma imbecilidade, por mais que infelizmente exista. Quem decide a hora de fazer força é o corpo da mulher. O tal do puxo dirigido só atrapalha o parto. Outra coisa idiota é parir deitada (exceto quando a gestante preferir), já que é uma posição que torna o parto mais lento e dolorido.

  4. Não descreva um bebê que nasce de um parto difícil assim "nossa, ele nasceu roxo!" Todos os bebês nascem roxos porque o útero é um lugar de baixa oxigenação. Em alguns minutos, o bebê fica rosinha.

  5. Depois do bebê, a mulher ainda precisa expelir a placenta.

  6. Partos envolvem urina e fezes, muitas vezes. O corpo da mulher está fazendo uma coisa incrível, que exige muito dela. Higienizar o parto, com bebês que nascem sem vérnix, sem sangue e rosinhas, e mulheres que não ficam suadas, exaustas e não expelem nada dos seus corpos, além de não ser realista, mostra certa imaturidade. É claro que dependendo do gênero que você está escrevendo, e a faixa etária do seu leitor, certos detalhes realmente são desnecessários.

  7. A cesariana: a cirurgia cesariana é uma maravilha da medicina, que salva mulheres e bebês em situações de risco. Só que como qualquer cirurgia, ela tem riscos, e não deveria ser feita sem indicação. O Brasil tem uma taxa de cesarianas de cerca de 60%, quando a recomendação da OMS é de que não passe de 20%. Ao contrário do que muitas mulheres dizem em discussões sobre parto nas redes sociais, parto não é questão de opinião. Na medicina, o ideal é que os médicos sigam as evidências científicas. As evidências apontam que a cesariana é arriscada para mães e bebês quando não há indicação para ela. Pense na evolução da medicina, para que consiga fazer intervenções cada vez menos invasivas, para que não seja necessário abrir o corpo de um paciente. Isso porque uma cirurgia sempre apresenta um risco. Já o parto normal apresenta poucos riscos quando a mulher recebe um bom acompanhamento e quando ela tem uma gravidez de baixo risco. É por isso que as taxas de partos naturais são altas em países ricos.

  8. Se seu livro vai ter uma cesariana salvadora, pesquise os motivos reais. Eles não são: cordão enrolado (isso é normal e não mata neném), "falta de dilatação" (toda mulher dilata, os médicos gostam de apressar o parto, mas ele precisa progredir no tempo dele) entre muitos outros. Pesquise sobre Indicações reais de cesariana.

  9. Depois do parto, existe a recuperação. Para o parto normal, ela geralmente envolve um dia no hospital e um pouco de dor na vagina, dificuldade para ir ao banheiro e coisas do tipo. A mulher sangra por cerca de um mês. Depois da cesariana, a mulher está com muitos pontos na barriga e precisa usar uma cinta. Arde para levantar, tossir, rir e se mexer nos primeiros dias e em geral é uma recuperação mais chata. Envolve também cerca de três dias no hospital. A mulher sangra por cerca de um mês.

  10. A dor do parto é intensa, mas a mulher que está sendo respeitada e apoiada não "sofre", porque ela provavelmente está bem informada sobre o parto. Ela pode gritar e sentir muita dor, mas assim que o bebê nasce, a dor passa imediatamente e ela sente uma alegria intensa (claro que em circunstâncias "normais"), que é otimizada pela liberação de ocitocina no corpo dela.

SOBRE AMAMENTAÇÃO E PUERPÉRIO


Nenhum período da vida de uma mulher vai se comparar ao puerpério. Ele é hardcore e geralmente romantizado na mídia, o que faz com que a mulher se sinta ainda mais culpada quando fica triste e estressada. Imagina ficar meses sem dormir direito, sem energia, confusa, com dor, sem noção da própria identidade, achando-se feia, com o corpo exausto, desconectada e sentindo a cada visita a pressão absurda da maternidade: "ele não tá com frio?", "esse choro é de fome!", "nossa, você deveria colocar uma roupa mais quentinha nele". É o inferno. Se você acha ruim ser pressionada para ter filhos, é porque não imagina a pressão de ser mãe (mulher não tem um segundo de paz, não importa o que escolhe). Ao mesmo tempo, é uma fase de lua de mel com o bebê, o que torna tudo ainda mais instável. Numa hora, a mulher só quer morrer para poder descansar, na outra, ela acorda o bebê de propósito porque sente saudades dele. Loucura? PIOR. This. is. Sparta.


Por isso, é extremamente irritante ler um livro onde a mulher recebe a família ou amigos toda maquiada, linda, sorridente, numa casa limpa, com um bebê limpo no colo, que não chora. Isso simplesmente não existe. Se você escolheu falar sobre puerpério, vai ter que colher relatos de mulheres dispostas a falar a verdade. Leia fóruns sobre o assunto. Tente se colocar no lugar dela. Retrate essa fase com todas as suas contradições: a mãe está radiante de felicidade, mas está exausta. A casa está uma zona. As visitas mais atrapalham do que ajudam. O bebê chora. Pra caramba.


A amamentação pode ser uma delícia, mas a maioria das mulheres sente dificuldade no começo, principalmente quando o bebê demora para aprender a "pega" correta e mama errado (abocanhando apenas o mamilo e não a auréola), criando fissuras, sangramento e muito choro (de todos). Pesquise sobre isso também para mostrar essa parte com realismo. Em geral, em uma semana, a amamentação já vira uma coisa mais fácil e natural. Dica de realismo: faça a mulher reclamar de cólicas quando o bebê mama nas primeiras semanas (é o útero se contraindo para voltar ao seu tamanho normal).


RESUMO


A maternidade pode ser retratada de infinitas formas diferentes. O Bebê de Rosemary, Tully e Lado-a-Lado são filmes tão diferentes que parece até estranho colocá-los na mesma lista. Quer você escreva livros de horror, fantasia, romance de época, eróticos, policiais ou ficção científica, a maternidade irá se adequar ao seu tom, estilo e propósito. Mesmo assim, quanto mais informações você tiver sobre o assunto, melhor. É fácil o autor escorregar, o que pode gerar no leitor uma quebra de confiança, colocando a imersão em perigo.


Quer saber mais?


O WORKSHOP do curso BOLD é gratuito para alunos do BOLD e custa apenas R$ 29,90 para não alunos. Ele acontecerá online no dia 27/11/2021 das 15h-17. Saiba mais ou inscreva-se no link.


Disclaimer: eu sou autora, não obstetra. Isso não é um guia para gestantes e sim um artigo para escritores. Meu conhecimento sobre o assunto vem de 17 anos de estudo informal. Tive duas cesarianas e um parto natural. Antes de escrever qualquer coisa no seu livro, pesquise em mais de uma fonte. Isso inclui as informações que dei aqui, que tirei de artigos e experiência pessoal. Sempre cheque as informações, inclusive todas que você encontrou neste post.









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