Arquivo do escritor: O que é MICE?

A teoria MICE ficou famosa entre os autores gringos quando o podcast Writing Excuses começou a falar sobre ela. No curso BOLD, ofereci duas aulas sobre MICE - uma para entender a sigla e os "tipos" de histórias que se encaixam nessa teoria, e outra sobre como usar o MICE para resolver problemas de conflito na sua história, de acordo com o conteúdo fornecido no podcast (no BOLD, sempre citamos nossas fontes, pois somos contra a apropriação de conteúdo alheio).


Como o tal do MICE pode ajudar você, na prática?


Em primeiro lugar, o MICE faz você refletir sobre o tipo predominante de história que está contando. Isso pode ajudar a detectar problemas narrativos e estruturais. Em segundo, quando estamos empacados, especialmente nos eventos e conflitos do segundo ato, o MICE é uma mão na roda, pois nos ajuda a definir o tipo de conflito que vamos estabelecer.


O que significa MICE?




Minha tradução, sempre buscando simplificar e deixar tudo mais prático, ficou assim:


M (milieu): MEIO

I (inquiry): INVESTIGAÇÃO

C (character): CARÁTER

E (event): EVENTO


Sim, a tradução mais legal para character seria personagem, mas para manter a sigla, optei pelo caráter.


A teoria MICE parte do pressuposto que todas as histórias que contamos se encaixam num desses tipos. É claro que histórias são mais complexas e orgânicas do que isso, mas se estamos sendo práticos, definir o tipo predominante na sua história é um ótimo ponto de partida.


MEIO


Uma história de MEIO é uma história relacionada a um lugar. Esse lugar pode ser um planeta, um navio pirata, uma casa mal assombrada, uma escola de etiqueta para meninas rebeldes, um parque de diversões... A história de MEIO começa quando os personagens entram naquele lugar e termina quando saem.


Exemplo: Prison Break, 1a temp.





Prison Break é uma série com uma premissa simples: o irmão de Michael Schofield é preso e vai morrer na prisão. Michael é um arquiteto que ama seu irmão e bola um plano para tirá-lo de lá. Ele estuda a planta do lugar, as pessoas que trabalham lá, a rotina etc, tatua o plano inteiro, por códigos e desenhos, no corpo, e comete um crime para entrar na mesma penitenciária. O objetivo dele é fugir com o irmão.


A história começa quando Michael chega na prisão e em teoria, acaba quando ele sai. Ou seja, os conflitos da história são as coisas que acontecem que impedem que eles saiam de lá.


Exemplo 2: o livro Hell House, de Richard Matheson.


Hell House é uma história de terror do tipo gloomy house. Você tem uma mansão onde atrocidades aconteceram e uma equipe de pessoas (paranormais, psicólogos etc) vai até a casa para provar a existência de espíritos. A história começa quando eles chegam lá e termina, em teoria, quando saem. Será que vão sair?


INVESTIGAÇÃO


O "I" do MICE vem de inquiry, ou seja, inquisição, investigação, a busca por respostas. É toda história voltada para a resolução de uma questão ou mistério. Não precisa ser necessariamente uma história policial. O que caracteriza esse tipo de história é: ela começa quando os personagens iniciam sua busca por respostas e termina quando eles as encontram. Os conflitos desse tipo de história são aqueles que vão interferir na obtenção da resposta. Nesse tipo de história, é comum que a gente comece com uma pergunta, mas durante a busca ela só leva a outras, mais complexas.


Exemplo: True Detective, 1a temp.


Na série True Detective, somos apresentados, assim como os personagens, a um crime hediondo. A série conta a história de dois detetives em sua busca por uma solução para o crime. O que é interessante sobre TD, é que a série trabalha com uma investigação dentro de outra. Os conflitos são de natureza interna (os demônios pessoais dos investigadores e sua relação um com o outro) e de natureza externa (as dificuldades da investigação).


Exemplo 2: o livro Verity, da Colleen Hoover.





Em Verity, temos um ótimo blend de história M e I. Ela é, no entanto, predominantemente "I". Uma escritora, Lowen, é chamada para continuar uma série de livros best-sellers escritos por Verity Crawford, uma mulher bonita, rica e misteriosa que ficou famosa pelo seu talento como autora, mas que recentemente sofreu um acidente grave e encontra-se impossibilitada de continuar escrevendo. A ideia é que Lowen faça uma pesquisa nos arquivos de Verity para continuar a série. Para isso, ela passa um tempo na mansão da escritora, onde encontra um manuscrito estranho com confissões chocantes, onde Verity confessa diversos crimes. Apaixonada pelo marido da autora, e desconfiada que Verity está apenas fingindo sua catatonia, Lowen começa a viver um pesadelo dentro daquela casa.


O elemento MEIO é muito forte em Verity, porque a história inteira se passa dentro da mansão. No entanto, não há conflitos que impedem, fisicamente, Lowen de fugir dali. Os conflitos da trama são relacionados às dúvidas de Lowen: sobre a veracidade das palavras de Verity, o passado do casal, as intenções de Verity com sua série, e finalmente, o verdadeiro estado mental e físico da mulher. Por isso, é uma história do tipo I.


CARÁTER


A história tipo C é aquela focada na jornada interior de um personagem. As histórias "coming of age", espirituais e outras são geralmente do tipo C. Ela começa quando um personagem está infeliz com sua vida e começa uma busca interior para encontrar a felicidade. Isso pode acontecer de diversas maneiras, e o personagem pode não estar consciente do que quer até o momento da catarse. Histórias muito diferentes entre si, como O Apanhador no Campo de Centeio e o filme Click, são histórias C. Os conflitos são aqueles que impedem o personagem de entender o que precisa para ser feliz, ou de conseguir essa felicidade.


Exemplo: Comer, Rezar e Amar. Por mais que seja um livro de memórias, Comer, Rezar e Amar tem um história, que é basicamente a jornada (literal e figurativa) de uma mulher para se encontrar, depois de mais um relacionamento fracassado. Pode parecer fútil, mas o livro tem lições espirituais e insights interessantes. Os conflitos que impedem a prota de se encontrar vão aparecendo ao longo da história, quando ela é forçada a se relacionar com pessoas muito diferentes de si.





Exemplo 2: A Cabana, de William P. Young. Não é um exemplo de um livro bom (embora isso seja apenas a minha opinião), mas é um exemplo acessível. A Cabana é a história de um homem que perde a filha pequena, sequestrada e morta por um maníaco. Ele não consegue seguir em frente e depois de um tempo volta à cabana onde a menina foi encontrada, para uma conversa com Deus para aprender a perdoar e ser feliz. A história começa com o evento que cria o vazio existencial no personagem, e o faz abandonar a fé. Ela termina quando essa fé é restaurada.


EVENTO


Evento é o tipo menos restritivo de história, porque é basicamente qualquer história guiada por conflitos externos. Isso não significa que os personagens não terão arcos emocionais ou que não serão bem desenvolvidos. Significa apenas que o que move a história são os eventos da trama. A história começa quando o problema começa ou é descoberto, e termina quando ele é resolvido. Os conflitos são os acontecimentos que servem de obstáculo para que os personagens consigam resolver o problema.


Exemplo: o filme Armagedom. O evento? Um asteróide vai colidir com a Terra e matar todo mundo ("a global killer, mr. President"). A única solução é cavar um buraco nele e jogar uma bomba para explodi-lo. Para isso, a NASA precisa de Harry Stamper/Bruce Willis, o melhor perfurador do ramo. Eles vão treinar Harry e sua equipe e vão lançar todo mundo no espaço para salvar a Terra. Os conflitos são todos os problemas que eles enfrentam até finalmente conseguirem explodir o asteróide. Por mais que esses conflitos sejam internos, também (Harry aceitar que a filha dele cresceu e ama o Ben Affleck), Armagedom é uma história tipo E.


Para refletir:

O Senhor das Moscas, de William Golding, é uma história predominantemente M ou C?

Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, é qual tipo de história?

Drácula, de Bram Stoker, é qual tipo de história?


Você verá que nem sempre é fácil categorizar uma história no espectro MICE, e tudo bem. Se estiver tendo muitas dificuldades para entender onde sua história se encaixa no MICE, pense na pergunta que move a trama, no objetivo do prota, nos eventos que movem a trama para frente, e chegue a duas letras do espectro. A partir daí, pense nos principais obstáculos do seu prota e tente definir o tipo predominante de história.


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