5 Fatos de “Verity” sobre a vida e a mente de um escritor (sem spoilers)


O lançamento da autora Colleen Hoover, Verity, não chamou minha atenção de cara porque eu nunca fui fã do gênero YA, onde a autora desenvolveu sua carreira. No entanto, algumas blogueiras leitoras de thrillers pareceram bem empolgadas com a obra. Como a versão em inglês do livro estava disponível no Kindle Unlimited, eu não tinha desculpas para não ler. Que grata surpresa!


Colleen Hoover escreveu um domestic noir perfeito, um livro viciante que contém todos os elementos do subgênero do momento. A escrita é mais madura do que eu pensava (muito mais do que uma Julia Crouch ou Shari Lapena), embora não seja tão densa e afiada como a Lionel Shriver ou a Gillian Flynn. Houve muita coragem na escrita, no entanto, e eu sempre dou pontos para coragem, uma vez que conheço bem as reações exageradas de alguns leitores quando se deparam com uma personagem que foge ao estereótipo de mocinha kickass, casais que se aproximam de maneira rápida e intensa, e sexo. Muita gente não sabe lidar. Ponto para CoHo, que sabe disso, e mesmo assim se arriscou.




Mas este post é sobre outra coisa: Verity tem duas personagens principais, e as duas são escritoras, de forma que a autora teve uma boa oportunidade de investigar como funcionam as vidas e as mentes de escritores. Uma oportunidade bem aproveitada, por sinal.


Obs: as citações de Verity neste post foram traduzidas por mim, portanto podem estar um pouco diferentes da edição oficial do livro em português.


Fato 1: Exige-se que o escritor seja mais do que um escritor. E isso quase nunca ajuda sua escrita, além de destruir seu emocional


Posts diários, newsletters, site, loja virtual, stories interessantes, lives, sorteios... cada vez mais a rotina de um escritor no Brasil é projetar uma imagem constante nas redes sociais, de forma a mostrar sua persona e promover seus livros. Não estou reclamando disso – faz parte do trabalho e pode ser gostoso. No entanto, é impossível não perceber que as horas que um autor dedica à divulgação são horas que ele deveria estar dedicando ao trabalho criativo, que inclui muita leitura e contato com outras formas de arte e entretenimento, pesquisa de conteúdo para a obra atual, estudo e exercícios de escrita e, de fato, a escrita em si.


Além de divulgar seu trabalho, estar nas redes sociais significa que o autor precisa gerar conteúdo sobre o gênero que escreve, estar atualizado sobre o mercado, e claro, engajar em conversas com leitores. Nessas conversas, o autor raramente pode se expressar da forma como gostaria, para não ser crucificado pelas suas opiniões. Basta ver o exemplo da J.K. Rowling, que fez alguns posts infelizes numa tentativa desesperada de se conectar com sua base de fãs sem entender por completo as questões dessa geração. Foi o suficiente para uma autora com uma história de vida triste, que conseguiu criar uma das maiores obras infanto-juvenis de fantasia da história, virar motivo de revolta e chacota. Perdoa-se muito pouco na internet. Não há espaço para diálogo. Não há empatia por parte das pessoas que mais clamam por ela.


A personagem Lowen/Laura Chase sente isso na pele quando a editora faz um post anunciando que ela será a nova coautora da série de livros escrita pela personagem Verity Crawford:


“- Quem é essa tal de Laura Chase?
- Por que a Verity vai entregar o baby dela para outra pessoa?
- Não. Não, não, não!
- É assim que geralmente funciona né? Autora sem talento faz sucesso e aí contrata uma autora ainda mais merda para fazer seu trabalho.” (Verity, 2020)

A internet, o esgoto das relações humanas, um lugar onde exige-se que o autor esteja, cria um verdadeiro teste de resiliência, além de barreiras para sua escrita.




Fato 2- O autor precisa agir como uma celebridade, então todos supõem que seu objetivo é a fama e a grana. Mas será que é mesmo?


“Seus livros vendem OK, mas não bem o suficiente para assegurar outro contrato sem sacrificar um pouco do seu tempo. Você precisa concordar a se engajar nas redes sociais, fazer turnê, construir uma base de fãs. Suas vendas, por si só, não estão dando conta no mercado atual.” (Verity, 2020)

A quote já explica o problema. Nem todo autor quer se expor, quem dirá ser famoso. Alguns parecem adorar a atenção que recebem, mas é perigoso fazer deduções, uma vez que nossas interações e nossa exposição constante é um requisito das editoras para nosso trabalho. Quando você deduz que aquele autor adora aparecer porque dá muitas entrevistas e faz muitas lives, pode estar sendo injusto. Sou amiga de escritores que têm crises de ansiedade antes de entrevistas, mas parecem super à vontade e carismáticos durante uma live ou bate-papo em evento. Muitos de nós adoraríamos não nos expor, mas sabemos que não vamos conseguir uma base de leitores se não o fizermos.


“Quando comecei a escrever, não era minha meta ficar famosa. Eu sonhava com uma vida em que pessoas suficientes comprariam meus livros e eu poderia pagar minhas contas sem nunca mergulhar numa vida de riqueza e fama.” (Verity, 2020)

Além disso, tem a questão da grana. Muitos autores se gabam de sobreviver de escrita, mas na verdade poucos conseguem isso no Brasil. Até nossos autores mais famosos no século passado tinham outras profissões – jornalistas, diplomatas – para complementarem a renda. Dá para viver de literatura, no entanto, como é meu caso. Eu me sustento com traduções, cursos, mentorias, leituras críticas, edições, eventos e vendas de livros. Mas não conseguiria me manter apenas com royalties e vendas de livros, por exemplo.




Fato 3- Os leitores raramente sabem quem o autor realmente é


“Deve ser confuso, se apaixonar pelas palavras de um escritor antes de conhece-lo. Algumas pessoas acham difícil separar um personagem da pessoa que o criou.” (Verity, 2020)

Quantas vezes não me disseram que não conseguem me imaginar diferente da Kate, minha personagem mais conhecida? O engraçado é que eu sou muito diferente dela, e mais parecida com seu namorido, Ryan Owen. Mas sinto que, sempre que escrevo uma protagonista, as pessoas deduzem que estou escrevendo sobre mim. O que significa que, se elas não gostam do personagem, tendem a não gostar de mim, também. Considerando que eu escrevo sobre pessoas horríveis, não é de surpreender que tenha alguns haters.


Mas se tem uma coisa que eu aprendi na minha carreira é que não podemos subestimar os leitores. Sim, alguns deles vão confundir as coisas. Outros realmente não foram feitos para o tipo de livro que escrevemos, e tudo bem. Essas pessoas não são nossos leitores. A maioria vai entender sua proposta, vai abraçar o mundo que você criou, vai curtir o lado escuro dos personagens tanto quanto o lado bom. É para essas pessoas que o autor vai continuar escrevendo.


Não vou, no entanto, negar que machuca quando as pessoas tiram conclusões precipitadas sobre quem sou.


“Sou tão sem jeito que receio que, uma vez que os leitores me conheçam pessoalmente, eles vão parar de ler meus livros para sempre. Eu só fiz uma sessão de autógrafos, e não consegui dormir por uma semana antes. Estava com tanto medo durante o evento que mal conseguia falar. No dia seguinte, recebi um e-mail de uma leitora me chamando de vaca arrogante e dizendo que nunca mais leria meus livros.” (Verity, 2020)

O que aconteceu com a personagem Lowen também aconteceu comigo uma vez. Os leitores não entendem que durante uma sessão de autógrafos estamos pouco à vontade, porque há uma fila de pessoas impacientes esperando sua vez, o evento tem hora para acabar, e você está morrendo de medo de não lembrar do nome de um leitor com quem conversa nas redes sociais há anos e magoar aquela pessoa. Mas somos humanos. Naquele momento estamos ansiosos, querendo ser legais e ao mesmo tempo rápidos para não irritar quem está na fila, provavelmente exaustos e com fome e preocupados. Eu NUNCA lembro os nomes de pessoas com quem converso há anos. E conheço muitos colegas que também não lembram. Não porque não gostamos dessas pessoas, mas porque conversamos com centenas de leitores. Às vezes dá um branco num momento de pressão como uma sessão de autógrafos. Às vezes não conseguimos dar atenção para todo mundo. E a primeira conclusão é: vaca arrogante.


Fato 4- Não nos achamos os melhores autores do mundo


“Achar que não sou boa o suficiente faz parte do meu processo de escrita.” (Verity, 2020)

Um escritor de verdade provavelmente conseguiu desenvolver um pouco de orgulho pelo que escreve, mas raramente se acha um escritor brilhante. Isso porque um escritor é uma pessoa com referências muito boas. Crescemos lendo livros. Devoramos obras dos melhores autores de todos os tempos, clássicos que nos encantam não importa quantas vezes os lemos. É neles que nos inspiramos. E saber que não vamos conseguir superar nossos mestres é um combustível muito poderoso para continuar escrevendo, apesar de todos os motivos para parar (sim, os fatos listados acima). O que nos impulsiona é o desejo de fazer algo que deixaria nossos mestres orgulhosos.


Portanto, quando um autor está promovendo seu livro nas redes sociais, é muito possível que tenha orgulho do que fez e ache a obra digna dos seus leitores. Mas lembre-se sempre que falar que aquele livro está incrível faz parte do nosso trabalho. É muito possível que aquele autor que você considera arrogante seja uma pessoa que duvida constantemente de suas habilidades e no fundo seja um poço de insegurança.


Fato 5 – Escrevemos coisas horríveis... para conseguir lidar com coisas horríveis


Nas festinhas infantis, é inevitável. Mães com copinhos nas mãos, afagando cabeças de crianças suadas e meladas de doce:

— E você, Cláudia, faz o quê?


Durante os últimos 15 anos, minhas respostas foram variadas: tradutora, professora, coordenadora. E hoje eu tenho profissões suficientes para escolher a mais adequada para o grupo que me olha com expectativa. Mas nos últimos anos ficou impossível não falar:

— Eu sou escritora.


A conversa sempre segue assim:

— Ah, você escreve o quê?

— Romances.

— Ah, histórias de amor...

— Não, não... tipo... livros. Ficção.

— Ah, ficção! Nossa, com E.T.s e naves espaciais?

— Não, na verdade eu escrevo livros de suspense, policiais... essas coisas.


Sempre há uma pausa. Uma troca de olhares.


Eu já recebi fotos de cadáveres no meu Messenger, de um leitor: “Acabou de ser baleado aqui na rua”. É fácil deduzir que gostamos de violência, mas eu nunca conheci um autor de suspense, horror ou policial que seja violento ou que goste de crimes e criminosos. Quase sempre, principalmente entre as mulheres, são pessoas que viveram situações traumáticas – mortes de entes queridos, abuso físico e sexual, depressão, famílias violentos – e usam a escrita como forma de lidar com essas feridas.

“Preciso que a versão imaginária do meu mundo seja mais escura do que meu mundo real.” (Verity, 2020)

É inegável que escritores também são bons personagens (certo, King?). Somos pessoas que ganham a vida (com sorte) nos dedicando a explorar o que as pessoas têm de melhor e pior, tecendo tramas capazes de surpreender o mais calejado dos leitores, e fazendo isso apenas com uma ferramenta: palavras. Mas é uma profissão que foi demasiado romantizada em outras épocas, e talvez banalizada nos últimos dez anos. Acredito que a verdade está no meio-termo, nas pessoas que ainda acreditam no poder transformador das histórias, naqueles que sabem que um mundo sem livros é um mundo sem expressão humana. Verity é um daqueles livros que encantam leitores, mas que contém algumas verdades, nas entrelinhas, que só um escritor é capaz de compreender.



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