3 Coisas que descobri sobre mim na quarentena que mudaram meus planos para o futuro


Às vezes eu tenho a impressão de que tudo o que parecia importante não é mais. Com o isolamento e a insegurança do momento atual, numa rotina de extremos, sentimos que estamos sendo forçados a tudo – alguns a ir trabalhar contra a vontade, outros a ficar em casa quando tudo o que querem é trabalhar. Algumas pessoas precisam ficar com quem não amam, e outras, ficarem longe de parentes e amores. Os idosos, mais vulneráveis, são os que mais se expõem ao COVID-19, e algumas pessoas ainda fingem que as atitudes dos nossos líderes numa crise mundial não são relevantes e não deveríamos falar de política num momento como este. Todas as nossas certezas arrogantes foram abaladas. Nossa sensação de segurança provou-se uma ilusão. O que nos resta é nos despir das nossas convicções, da nossa arrogância, da nossa cegueira, e refletir sobre como seguir em frente.

Este post é sobre mim – não vou fingir que não é. Mas acho que a experiência humana é se abrir e esperar que suas palavras façam eco nas almas dos outros.


1- Eu sou muito mais paciente do que pensava


Há algumas coisas que aprendemos a aceitar em nós mesmos. Se eu tivesse que ser sincera ao ser perguntada sobre minha personalidade, a primeira palavra que viria à mente seria “impaciência”. Eu não consigo esperar por nada. Eu não fico em filas. Eu não suporto shoppings ou lugares cheios de gente onde todo mundo anda devagar na minha frente. Eu DE-FI-NI-TI-VA-MEN-TE não tenho uma personalidade adequada para ser mãe. Só que a maternidade aconteceu para mim, e ela é um esforço diário, justamente porque eu (e todo mundo) sempre me considerei a pessoa mais impaciente da história.


Na primeira semana de quarentena, com as crianças correndo pela casa, fazendo sujeira e brigando entre si, eu só consegui pensar: eu só preciso aguentar isso por umas duas semanas até entender o que está acontecendo. Cheia de trabalho para fazer, alarmada pelas notícias de pessoas estocando alimentos, eu me forcei a respirar fundo e tentar não enlouquecer, vivendo um dia de cada vez. Quando comecei a compreender que aquelas duas semanas virariam meses, eu fiquei surpreendentemente calma.


Cinco semanas depois, eu já me adaptei, tão suavemente que estou surpresa até agora. Estou conseguindo transformar essa quarentena numa experiência de proximidade com as crianças, de calma, de trabalho em conjunto (aqui a faxina é de todos), de falar com mais tranquilidade e do dolce far niente que sempre me deu urticária e crises de ansiedade. Aconteceu como um realinhamento de expectativas e prioridades, que se transformou numa pausa no tempo, numa oportunidade de curtir as crianças de verdade antes que cresçam.


2- A “carreira” de escritor é uma grande ilusão

Por definição, uma carreira é um caminho profissional que você vai pavimentando aos poucos – com trabalho, estudo, contatos – para chegar a um lugar almejado. Porém, minha vivência no mercado nos últimos anos foi quase como assistir a uma dança dos sete véus, onde cada véu (símbolo da ilusão) despido era uma decepção libertadora. O mercado desnudado ao final da dança me mostrou que no Brasil, não importa a fama, um autor de ficção não vai ganhar dinheiro o suficiente para que o esforço valha a pena. Além de não ganhar dinheiro, o autor terá que fazer um pacto com o silenciamento – ele nunca terá voz. Se alguém falar algo absurdo, uma mentira descarada, sobre seu livro, o autor não poderá responder. Se outro autor cometer um crime contra sua propriedade intelectual, e ele ousar falar, será considerado “treteiro”. Se ele quiser se expressar, artisticamente, de um jeito novo, será aconselhado a não interferir com a imagem que já criou. Caso uma pessoa de peso, poder e fama no mercado sacanear o escritor, ele nunca poderá levantar a voz para alertar os outros, pois ficará “queimado” para sempre, mesmo que esteja fazendo a coisa certa.



Pensando de forma pragmática e sem vaidade, nos prós e contras de ser um autor “domesticado” – aquele que fica na dele, que posta as fotos bonitinhas, que nunca tem críticas, que está sempre malhado e penteado – não há conclusão diferente: o mercado inibe a criatividade e a expressão artística. É uma contradição absurda querer ser um artista domado, querer encaixar-se nas expectativas alheias para ser bem-sucedido e amado e ao mesmo tempo criar algo REAL.

A quarentena tem feito com que eu observe os gritos silenciosos por ajuda que meus colegas estão soltando. Por meio de relatos e posts e desabafos, esses artistas têm se mostrado desiludidos, pessimistas e deprimidos. Entre eles, autores famosos de “grandes editoras”, autores desconhecidos, autores consolidados. Jovens e maduros. Homens e mulheres. Ninguém aguenta mais. Se está bom, está bom para pouquíssimos, e conhecendo alguns desses pouquíssimos, eu ainda tenho minhas dúvidas.

Eu vejo um futuro de explosão artística e de mais verdade na escrita. Eu realmente acredito que muitos escritores vão conseguir se libertar das armadilhas do “sonho” editorial e começarem a se expressar de verdade, escreverem o que quiserem, conversarem com um público menor, só que ávido por essa expressão, por essas obras mais indigestas e menos enlatadas. Eu sei que isso vai acontecer, mas ainda vai demorar. Enquanto isso, estou me libertando. Tenho obras engavetadas que vou lançar ao mundo, tenho cada vez encontrado mais prazer em trabalhar nos bastidores e ajudar outros autores e tenho, depois de anos, voltado a me divertir escrevendo. Posso garantir que coisas interessantes já estão levantando fervura e que como escritora, eu me sinto mais livre do que nunca.

3- Apesar de tudo, eu sou otimista

As notícias são cada vez piores – milhares de pessoas morrendo, hospitais transbordando de enfermos, trabalhadores de diversas áreas expondo-se a um vírus com potencial letal, a economia mundial implodindo.

Eu nunca me considerei otimista. Na verdade, choquei alguns amigos esses dias ao afirmar veementemente que se houvesse um botão que matasse toda a humanidade de uma vez só e sem dor, eu o apertaria hoje. Sempre tive a tendência de encarar o mundo como ele é, e não como eu gostaria que fosse.

Só que em meio a tudo isso, eu percebi que sou mais otimista do que muitos João Raio-de-Sol ao meu redor. As pessoas estão desesperadas, prevendo o fim dos tempos, chorando pelos cantos, arrancando os cabelos. SIM, todas essas reações são completamente aceitáveis, compreensíveis e humanas. Oscilar entre momentos de contentamento e desespero e gratidão e depressão é uma reação normal. Já as pessoas que ignoram os fatos e estão debochando dos mais cautelosos, aquelas mesmas que dizem que essa pandemia é uma conspiração e continuam dando churrascos para a vizinhança inteira – essas sim são as doentes. Portanto, deixo claro que a montanha russa emocional é normal e que não deveríamos nos culpar ou nos sentir fracos por estar nela.

No entanto, eu vejo um alarmismo desproporcional e sem base científica alguma entre muitas pessoas. Foi em algumas conversas completamente malucas que eu descobri que apesar de tudo, eu sou otimista. Eu compreendo a gravidade da situação – principalmente o peso no sistema de saúde. Eu levo o vírus a sério (eu tenho muito a perder) e na verdade fui a primeira pessoa do meu círculo social a me isolar. Mas não, eu não acho que o mundo vai mergulhar nas trevas e que vamos passar 5 anos sem sair de casa. Até porque isso não é possível. Comparar nossa situação com a situação da Anne Frank não faz sentido algum, estamos em outro mundo e não estamos em guerra. Ao contrário de Anne Frank, temos a liberdade para fazer escolhas e a primeira delas é pressionar nossos líderes, aqueles que ganham fortunas para basicamente falar merda no Twitter, a reestruturar nossa economia, a destinar fundos para nosso sistema de saúde, a trabalhar pelo povo e não pelos bancos ou grandes empresas. Temos a liberdade para nos revoltar contra eles e exigir que criem comitês remunerados de especialistas em infraestrutura, economia, educação e saúde para propor soluções criativas para esta crise. Temos o poder de fazer doações a quem precisa, comprar dos comércios menores e reinventarmos nossos negócios. E finalmente temos tempo e tecnologia para tudo isso.

O desespero é contagiante e muito mais perigoso do que um vírus. É ele que fez com que famílias estocassem leite em pó e deixaram mulheres mais pobres sem ter como alimentar seus bebês porque não tinham dinheiro para estocar um produto tão caro (no Brasil, uma lata de fórmula infantil custa em média R$ 43 e dura uma semana). É o desespero que acabou com produtos que podiam estar disponíveis para todos. No desespero, o desequilíbrio social fica mais acentuado. No desespero, a pessoa com saúde mental frágil fica ainda pior, o espancador da esposa bebe mais, as mães sob pressão ficam mais depressivas e a imunidade vai para o espaço. Pessoas ficam violentas e doentes. O vírus não é nosso maior inimigo, e sim o desespero. Enxergar os fatos, ter a maturidade para lidar com eles, adaptar-se a um novo estilo de vida e aprender a separar o que é supérfluo e fundamental – talvez o otimismo seja isso. E é exatamente desse tipo de otimismo que estamos precisando agora.

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